A SEDUTORA DOS SANTOS
Ela era assim:Cabelos muito ruivos,ora com mexas mais obscurecidas,ora com mexas vermelho sangue,tão vermelhos como se lhe tivessem golpeado-lhe o crânio,e dele escorressem longos filetes de sangue e vinho.E caíam-lhe como um convite a paixão mortal que ela exalava.A pele de porcelana,uma porcelana de penugens muito finas,como um pêssego maduro.Os olhos,jamais se decidiram,se queriam serem verdes ou cor de mel.Mudavam conforme a claridade e hora do dia,porém o verde quando assumia,era um verde como o lodo que se forma no fundo das coisas obscurecidas aonde a luz mal chega,e a umidade impera,como no fundo de um poço brumoso.
A boca,era apetitosa e carnuda,e ela fazia questão de tingir-lhe de um vermelho escarlate até mesmo quando ia dormir,mesmo que sozinha.
Tinha as formas bem fartas e generosas,quadris largos,seios volumosos e voluptuosos..Era como lhe disse um poeta que a tinha como musa,uma vez:"Minha querida,tua beleza é tanta que chega a ser obscena!"E era justo este o elogio que mais a agradou,dentre os milhares que recebeu na vida.Pois gostava das coisas obscenamente belas.Tinha pavor de coisas insossas.
E havia um compromisso diário que não faltava jamais.Ia as aulas de tango todas as tardes obstinadamente,houvesse o que houvesse.
Adorava particularmente cores e coisas que gritassem algo.Por isto a predileção pelas cores fatais.
Todos os dias por volta das cinco da tarde,sentava-se num banco da praça das acácias e se punha a olhar os noviços do convento santa Tereza.
E seu coração vibrava como as cordas de um violino,num solo perturbadoramente belo.
Como eram belos com aquela aura santa,aquele olhar recatado,que sempre voltavam ao chão!Como era doce o ar da castidade e como eram lindos em teus hábitos imaculados!Como ela era devota daqueles seres tímidos !E uma compaixão triste,misturada a uma fascinação incontrolável a fulminavam.E punha-se a sussurrar,mordendo os lábios,sempre:Pecado é viver sem conhecer a embriagues do amor,crime é viver sem se entregar ao vinho da paixão!
Imaginava então, a vertigem que lhes causaria um beijo cálido...Imaginava-os como uma tela em branco,omitindo-se a arte.
E como se desafiasse a Deus,numa brincadeira sarcástica,ria-se:Se quisesse lhe tiraria todos eles!Um a um!!
Ela tivera até seus 25 anos algo em torno de meia dúzia de namorados.Isto sem contar os amores platônicos,admiradores e pretendentes que a cortejaram e que dela se enamoraram.Embora ela amasse se apaixonar não tinha pressa.Aliás,tinha muita parcimônia.Nunca foi do tipo vulgar.os escolhidos sempre tinham algo de muito especial.Odiava pessoas e coisas ordinárias.Sempre rejeitava os galãs baratos e pretensiosos,metidos a conquistadores.
Destes, ela tinha o mesmo nojo que tinha ao olhar os porcos devorando as lavagens imundas,na chácara de sua madrinha Dalva, em alguns domingos em que ia visita-la.
Isto explicava a recusa a tantas propostas de namoro e casamento de homens de posses,estudo,prestígio,beleza e inúmeros atributos desejáveis a qualquer outra mulher. O que despertava a atração eram os tímidos,os que se guardavam e se escondiam do amor,das sensações arrebatadoras,ou mesmo o que os outros julgavam como frios..Primeiro,ela os olhava,e ia os encantando usando de todos os artifícios inimagináveis.Tentava-lhe adivinhar as fantasias mais íntimas e secretas.E depois as vestia como uma atriz que veste uma personagem.E não era pérfida,nem por um único segundo,pois acabava sempre por se tornar mesmo aquelas fantasias.E era como aqueles tangos antigos,no qual ela se escolara desde a adolescência.Se um dava um passo a frente o outro,um passo atrás,este era o compasso em que o desejo se torna foras.
Sem que eles percebessem,eram como insetos atados numa teia, prestes a serem devorados pela' viúva negra'.
E quanto mais contidos,racionais e comedidos fossem os pobres infelizes,tanto mais desequilibrados e obcecados por ela,fatidicamente seriam.
E isto a fascinava,deliciava,a enchia de euforia,a fazia sentir-se viva,acendia nela a centelha de vida que ,sem esta maravilhosa sensação ia se apagando,fazendo-a se sentir como enferma numa existência de inércia.E se por ventura,um deles resistisse,ela se inflamava de paixão a ponto de andar febril,perder o apetite,sonhando acordada com o 'herói resistente' e chagava até mesmo a cometer várias loucuras para que ele cedesse .
E por isto,a felicidade e o êxtase que ela causava a cada um deles era infinita e arrebatadora.Nenhuma outra mulher se dedicaria como ela a faze-los tão felizes com tanto esmero.Cultivava desde então recordações tão especiais que lhes assombrariam por anos e os fariam desejar te la novamente.Tratava de se tornar insubstituível,inesquecível e incomparável.Nunca foi menos que a melhor noiva,namorada e amante de todos os tempos.
E se por ventura,um deles resistisse,ela se tornava obstinadamente e serem felizes mais irresistível,se inflamava de paixão a ponto de andar febril,perder o apetite,sonhando acordada com o 'herói resistente' e chegava até mesmo a cometer várias loucuras no intuito de seduzi-lo, para que ele se visse arrebatado .
Mas quando se dava o ápice da paixão,da loucura e do arrebatamento,começava-se o drama.
Ela se torturava e os torturava por vertigem,ria,chorava,desdenhava,suplicava,os empurrava,os puxava desesperada para si,provocava-lhes...Tudo por uma emoção a mais.E era ai que a dança se tornava mais dramática,frenética e bela.Neste ponto,era fascinante ver sujeitos antes sensatos,coerentes e circunspectos ,suplicarem como crianças,se arrastarem,e ameaçarem por um fim em sua própria existência se ela os deixasse.E daria mesmo tudo o que possuía,seria mesmo capaz de entregar sua alma num pacto com o Diabo,por uma paixão que não tivesse fim,não se tornasse morna,com o passar dos anos.
Mas no fim das contas,afinal souberam todos o que era viver,e não apenas existir de forma enfadonha e insossa.Ela considerava como uma imensa caridade,como algo glorioso.Fazer-lhes sentir-se vivos,sentir as foices da paixão,dança-la com graça e excelência.Provar o néctar da vida sem diluições,o sabor mais doce que a vida pode oferecer e o mais amargo,sentir o sangue correndo nas veias...tornar criaturas medíocres em poetas,trovadores,ébrios,loucos,suicidas.Houve até mesmo um deles que chegou a contrair tuberculose e fragilizado pelo fim do relacionamento,veio então a morrer de amores.Quanta honra,para uma existência que seria condenada a fenecer tediosamente,se tornar decrépita e decadente!
E assim ela viveu até os vinte e cinco anos de idade,quando,por acidente,esbarrou-se com um jovem noviço no lotação que coincidiu de sentar-se a seu lado.Ele tinha as feições delicadas e pálidas como os santos da igreja a qual frequentava com sua mãe,desde menina.A aura de mistério que ele exalava era tão violenta,quequase se via uma auréola coroando -lhe a bela fronte.E tinha um aroma santo de rosas brancas,que fez seu coração bater mais forte.Ela trazia um pacote de maçãs bem maduras e vermelhas ao colo,e o aroma das maçãs se misturou ao de rosas brancas.Ela,sentiu-se purificada e santa,contudo o coração disparado,e a respiração ofegante que tentava disfarçar.Ele,de olhos sempre abaixados,ar sereno,trazia meia dúzia de livros apertados ao peito,um terço prateado entre os dedos longos brancos e os gestos absurdamente gentis.Ela,nada podia fazer,paralisada.De repente o lotação se aproximou de seu ponto.Abriu a boca e levantou-se para pedir-lhe licença,mas o lotação freou e as maçãs se espalharam pelo chão do veículo e sobre o colo do noviço.Ele a amparou junto as maçãs.E os cabelos ruivos caíram sobre o hábito e os livros santos,tingindo-os de escarlate.Num semi-sorriso tímido perguntou se ela havia se machucado.Tinha a voz cálida e doce,como nunca ouvira,de um homem antes. O toque dele era como de um arcanjo da mais alta hierarquia celeste,como de uma seda alva.A arrebatada,desta vez foi ela.
Ela esperava os dias em que ele saia do convento para cumprir tarefas internas do mesmo, e passou a espera-lo,tentava adivinhar-lhe alguma fantasia,mas não conseguia.não conseguia ser mais a mesma!
Diante dele,era só uma vontade de desfalecer-se,uma palidez,uma vertigem violenta que a deixavam com aspecto de mártire as portas da agonia.
Certa vez,ao encontra-lo em frente a igreja,ela chegou a desfalecer em seu colo.Pendeu a cabeça sobre teus braços,os cabelos dela sangraram sobre ele,era como como se toda a paixão,todo seu coração febril ,desejo e todos os seus pensamentos sangrassem seus pecados,os lábios carnudos e rubros entreabertos,a fronte delicada,suando frio,gélida,frágil,pálida,o pescoço longo e tão feminino...De repente o céu e toda idéia de outro paraíso lhe pareceu ridícula e infinitamente inferior aquele instante,aquela mulher,toda idéia de santidade fora do amor lhe pareceu patética. Finalmente o coração do jovem despertou como em brasas.Quando ela ameaçava voltar a Consciência,foi acordada com um beijo..Ele deixou que a bíblia que trazia junto ao peito fosse ao chão.Foi um beijo demorado e não tão santo.Que a deixou sem forças,o aroma de rosas brancas a penetrou profunda e lascivamente.Cala-frios intensos e impiedosos percorreram cada poro de seu corpo,o coração prestes a saltar pela boca.Sentia-se morrer.Pela primeira vez,se sentia sem saber o que fazer,completamente desesperada...Ele a soltou,pegou a bíblia caída ao chão.Sorriu,de forma encantadora e cortês, disse adeus e se trancafiou no convento.Nos dias que se seguiram ,era sempre outro noviço quem cumpria as tarefas do convento.Ela nunca mais o viu.Foram anos de batidas a porta e cartas sem resposta.
Finalmente,sua paixão durou enquanto ela viveu...
(Gabrielle Violet)
Desde os sete anos de idade,ela doia-se naquele enigma daquela estanha fome,a qual secretamente esvaia-lhe o viço e castigava-lhe,sem que ninguém pudesse faciar. sabia-se irremediavelmente erguida ,em cada célula do seu frágil corpo infantil,misteriosamente apenas para amar.E quando lhe faltavam coisas a amar,era como se houvesse um grande buraco em seu peito que lhe tirava a vontade de brincar como as demais crianças, a vitalidade e alegria tao típicas nesta idade.Era um ardor torpe,um transbordamento de sentimentos cálidos,um descompaçar de coraçao sem mais nem menos,que ela em sua infinita inocencia,chamava de 'fome do coraçao´.Sentia em seu peito tao pequeno combustoes de sentimentos tao inefáveis que as vezes ia chorar e se fugir das pessoas no 'colo das flores',suas únicas cúmplices naquela precoce e dolorosa vontade de amar liricamente ate desmanchar-se!
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